O novo Nissan Kicks chegou completamente transformado. Não é aquela história de facelift com ajustes pontuais — mudou o visual, o tamanho, o conjunto mecânico e a proposta. O carro que ficou famoso pela robustidade agora aposta num refinamento diferente, mais sofisticado, mais tecnológico. A pergunta que fica é: depois de mudar tudo, ele ainda vale a pena?
Design externo: dianteira nova, atitude diferente
A dianteira do novo Kicks quebra com o que a gente conhecia. Os faróis são bem afilados e se conectam à grade superior em preto brilhante, formando um conjunto coeso e moderno. Os LEDs de condução estão integrados a esse bloco, junto a vários elementos na cor da carroceria e outros em preto — tanto brilhante quanto fosco — que dão profundidade à composição. A parte inferior tem textura diferenciada, o que evita aquele visual de peça plástica solta. É um cuidado que a Nissan teve com os acabamentos que vale reconhecer.
O capô com ressaltos nas laterais dá um aspecto mais parrudo ao conjunto, e o para-brisa amplo reforça a sensação de um carro maior. A dianteira é, sem dúvida, um dos pontos mais bem resolvidos do novo projeto.
Na lateral, as rodas de 19 polegadas chamam atenção, mas o perfil de pneu bem fino é um fator que merece atenção. A suspensão do Kicks é bem equilibrada e compensa bastante, mas em pisos com buracos ou obstáculos pontuais a sensação de pancada chega até o habitáculo de forma mais direta. Um perfil ligeiramente mais alto faria diferença no dia a dia.

Outro detalhe marcante é o teto bicolor: as colunas em cor diferente da carroceria, complementadas por um aplique cromado que se estende até a coluna traseira, dão personalidade ao conjunto. A janela espia na coluna traseira, com o nome "Kicks" gravado no vidro, tem função mais estética do que prática — a visibilidade que ela oferece ao motorista é praticamente nula.
Na traseira, as lanternas partem da parte baixa do para-choque, sobem e se conectam por uma faixa preta que atravessa a tampa — uma solução visual que amarra bem o conjunto. A inscrição "220T" sinaliza claramente que o conjunto mecânico é outro. Um detalhe que diferencia o Kicks de muitos concorrentes: a parte inferior do para-choque traseiro segue o tom da carroceria, em vez do prata falso que simula um defletor. Sutil, mas bem executado.

Interior: acabamento que impressiona
Entrar no novo Kicks na versão topo de linha é uma experiência que convence. A parte superior do painel é em soft touch, complementada por uma régua com tecido que segue até os painéis de porta — onde o mesmo material aparece no apoio de braço. Os plásticos têm texturas diferentes nas extremidades e no painel central. O couro sintético que reveste partes do painel tem qualidade próxima à dos bancos, o que dá coerência ao conjunto.
O volante forrado em couro tem regulagem de altura e profundidade — o que parece básico, mas nem todo concorrente oferece — e facilita muito encontrar a posição ideal de condução. Há um senão, porém: a posição do botão de partida é pouco ergonômica, meio escondida, assim como os controles do freio de estacionamento e do auto hold, que poderiam estar mais acessíveis.
Os botões seletores de câmbio (P, R, N, D) e os comandos do ar-condicionado são em black piano e sensíveis ao toque — um ponto de atenção para quem se incomoda com marcas de dedos. O ar-condicionado é de uma zona só, mas gela muito bem. A ausência de saída de ar para os passageiros traseiros, no entanto, é um descuido difícil de ignorar num carro dessa faixa de preço.
Os bancos em couro são bonitos e confortáveis. As caixas de som do sistema de áudio ficam embutidas nos encostos de cabeça — um elemento visual interessante —, mas a qualidade do som fica abaixo do esperado para uma assinatura premium: médios e agudos reguláveis, mas o grave poderia ser mais limpo e definido.
O teto solar panorâmico é o elemento que mais transforma a experiência interna. Dá charme, amplitude e luminosidade ao habitáculo de um jeito que nenhum outro item consegue replicar.

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Divulgação
Infotenimento e tecnologia embarcada
A tela multimídia de 12,3 polegadas é ágil, responsiva e tem espelhamento sem fio para Android Auto e Apple CarPlay — e o espelhamento acontece rapidamente, sem demora frustrante. O menu nativo tem um layout um tanto quanto confuso, mas como a maioria dos usuários vai operar via espelhamento, isso acaba sendo um problema secundário.
O quadro de instrumentos digital tem layout limpo, com leve pegada retrô, e exibe as informações de maneira clara. No console central há carregador de celular sem fio e duas entradas USB tipo C, que se repetem no console do banco traseiro — uma atenção bem-vinda para os passageiros de trás.
O Kicks conta com câmera de ré, câmera dianteira e câmera 360 — esta última com qualidade visual um pouco abaixo do esperado, mas funcional nas manobras do dia a dia. O sistema exibe também uma espécie de mapa de calor no quadro de instrumentos, indicando a proximidade de obstáculos. Há ainda controle de cruzeiro adaptativo, sistema de manutenção de faixa com vibração no volante, alerta de colisão com frenagem de emergência e alerta de ponto cego nos retrovisores. A eletrônica embarcada é generosa.

Espaço interno e porta-malas
O novo Kicks cresceu, e isso se traduz em bons números dentro do carro. Com o banco dianteiro ajustado para um motorista de 1,73 m, o espaço no banco traseiro chega a uma palma aberta entre os joelhos e o encosto — confortável para viagens longas. O entre-eixos de 2,65 metros é o maior da categoria junto ao T-Cross, e faz diferença perceptível no espaço para as pernas.
Dimensões do Kicks
Comprimento: 4.365 mm
Largura: 1.800 mm
Altura: 1.620 mm
Entre-eixos: 2.655 mm
Porta-malas: 470 L
Na posição central traseira, as costas ficam ligeiramente projetadas para frente, o que é natural pela presença do túnel. O túnel central limita quem calça maior, mas ainda há espaço útil de cada lado. O encosto de braço traseiro tem o mesmo tecido dos bancos dianteiros — um detalhe que demonstra consistência no acabamento. A queixa que permanece é a ausência de saídas de ar para a traseira.
O porta-malas foi o grande beneficiado com o crescimento do carro. Ele tem piso ajustável em dois níveis, permitindo ampliar a capacidade de carga quando necessário. A tampa é pesada e não tem abertura automática — um ponto a melhorar. A abertura também não é acionável pela multimídia ou pela chave, apenas pelo botão externo.
Motorização e desempenho: conjunto adequado, mas questionável
O novo Kicks usa um motor 1.0 turbo de origem Renault, com 125 cv e 22,5 kgf·m de torque, associado a uma transmissão automatizada de seis velocidades — e é aqui que mora a maior polêmica do carro.
No uso urbano, o conjunto se comporta bem. O torque alto nas rotações baixas deixa o carro ágil nas retomadas e no tráfego pesado. Em estrada, porém, a falta de motor se faz sentir — o Kicks pede mais. A própria Renault oferece um 1.3 turbo com cerca de 160 cv que, num carro desse porte e proposta, cairia muito melhor.
A transmissão automatizada também levanta dúvidas. A Nissan sempre foi associada ao câmbio CVT no Brasil — uma caixa com boa reputação de robustez. Migrar para uma automatizada de seis marchas é uma aposta que o tempo ainda vai avaliar. Não é um problema confirmado, mas é uma incógnita que existe.
Dirigibilidade: aqui o Kicks realmente convence
Se o conjunto mecânico gera debate, a dirigibilidade não deixa dúvidas. O Kicks tem um rodar muito sólido, que lembra carros de um segmento acima. A direção elétrica pesa de forma progressiva e natural, sem aquela sensação artificial que alguns concorrentes apresentam. A resposta é direta, o carro é preciso.
A suspensão é o grande acerto dinâmico do novo Kicks. Ela controla bem as inclinações em curvas, filtra bem as irregularidades do asfalto e entrega um comportamento que equilibra conforto e esportividade. A traseira pode se soltar um pouco mais do que o esperado em alguns momentos, mas sem comprometer o conjunto.
O isolamento acústico é muito bom — em velocidades acima de 100 km/h na rodovia, praticamente só o ar-condicionado se faz ouvir. A visibilidade, porém, é um ponto fraco: o retrovisor interno ocupa boa parte do para-brisa e a janela traseira é curta, limitando o campo de visão do motorista.
Consumo de combustível
No trânsito urbano intenso, a melhor média registrada foi de 9 km/L na gasolina — um número que reflete as condições de uso mais exigentes. Em ciclo misto, a média sobe para 12,9 km/L, um resultado razoável, mas abaixo de alguns concorrentes diretos.
Um fator que afeta diretamente a autonomia é o tanque de combustível pequeno, uma característica recorrente nos modelos Nissan. O resultado prático é que, mesmo com consumo relativamente controlado, as idas ao posto são mais frequentes do que o tamanho do carro sugeriria.
Novo Nissan Kicks: vale a pena comprar?
O novo Kicks é um carro muito bem equipado, bonito, com um rodar sólido e espaço interno generoso. Esses são os seus maiores trunfos — e são trunfos reais. O acabamento da versão topo de linha está num nível superior ao que a categoria costuma oferecer, e a eletrônica embarcada é completa.
O que pesa contra é o preço salgado para a categoria, o conjunto mecânico que gera dúvidas — tanto pelo motor quanto pela transmissão automatizada — e o consumo abaixo dos concorrentes. Para quem está disposto a pagar pelo refinamento e pelo rodar diferenciado, é uma compra que faz sentido. Para quem prioriza custo-benefício numérico, há opções mais competitivas na mesma faixa.
O Kicks renovado tem tudo para ser um bom carro. O mercado ainda vai dizer se a aposta da Nissan vai se traduzir em vendas.


