Algumas semanas atrás, este colunista que novamente vos escreve falou sobre a estratégia recente das montadoras de recorrer à “escola retrô” para fazer a ponte entre carros elétricos, apontados como o futuro da mobilidade privada, e os veículos tradicionais. Não que seja eu um visionário, afinal esta é uma solução já não muito comum na indústria. Todavia, para que o público “reconheça” um modelo em um mar de faróis separados, filetes luminosos atravessando a dianteira e lanternas unificadas, trazer o passado à tona se torna, no fim das contas, uma inovação.
Borbulhando com protestos fora do pavilhão, o Salão de Paris recebeu uma onda de novas propostas neste sentido: evocar as tradições para se diferenciar dos novatos. Já se esperavam algumas novidades para o evento francês, mas a série de apresentações foi recheada por modelos inesperados.
A Renault, por exemplo, havia revelado fotos do 8 Gordini, que faz alusão a um modelo feito entre 1962 e 1976. No entanto, a marca causou surpresa com a E-Space, uma minivan com contornos inspirados na primeira geração da Espace, que basicamente criou o segmento na Europa. Pelo projeto, o conceito parece quase pronto para ganhar as ruas, o que não seria de todo uma surpresa.
A compatriota Peugeot fez algo parecido. Quando publicamos a coluna, apenas o conceito Polygon havia sido confirmado para o evento. Ao se abrirem as portas do pavilhão, a empresa mostrou duas criações com a mesma receita, ambas conceituais.
O E-T16 presta tributo ao 205 T16, que venceu o Mundial de Rali em 1985 e 1986. Já o RCZ Vision se inspira em um produto bem mais recente e que foi inclusive vendido no Brasil: o RCZ (2009-2015), informalmente conhecido como “TT da Peugeot”.
Na mesma pegada, a Citroën levou à mostra parisiense uma releitura do aclamado 2CV, o “Fusca francês”. Conhecido como “guarda-chuva sobre rodas” na França de décadas atrás, o espartano compacto original foi a inspiração para um elétrico urbano para os dias atuais. Mas a marca não se limitou ao hatch: recriou também o Fourgonnette, que deve render um utilitário de produção.
Mas, como nos mostrou a Peugeot, a onda retrô da vez não se limita a modelos surgidos em meados do século passado: a nova fornada “vintage” chega recriando carros não tão antigos. Além disso, não precisam ter feito o sucesso comercial de um Renault 5, uma Volkswagen Kombi/Transporter ou o aqui citado Citroën 2CV.
É o caso do Audi A2, por exemplo. O modelo original, feito entre 1999 e 2005, tinha diferenciais como a carroceria monovolume e a construção em alumínio, que o deixava leve, resistente e caro. Além do alto preço, o design era apontado como razão para não comprá-lo. Agora, ele ressurge basicamente com o mesmo formato, embora o restante do pacote seja adaptado à atual identidade da marca alemã.
Onda retrô do segmento automotivo vai além da França
Outro que retorna de maneira parecida é o Smart Fortwo (ou #2, como prefere sua fabricante). O hatch teve três gerações (1998-2024), é verdade, e até conquistou seu público. No entanto, a Mercedes não estava satisfeita com os resultados comerciais da gama de compactos e, em 2019, firmou parceria com a Geely, na China, para expandir a família. O ForTwo foi descontinuado em 2024, mas, pelo visto, vai voltar às lojas futuramente, ao lado de outros quatro modelos – todos de quatro ou cinco portas – que estão em produção na Ásia.
Quem não ficaria de fora desta onda, claro, é a Fiat. Vivendo atualmente de Grande Panda, 500 e 600 na Europa, a italiana exibiu dois conceitos que antecipam soluções de produção. Com o Multiplina, inspirado no 600 Multipla (1956-67), a marca pretende transportar até quatro pessoas em um veículo de menos de 3,70 metros de comprimento.
Ele já havia aparecido em junho, mas a presença em Paris fez aumentarem os rumores de produção. Por fim, o Multiplay, que reúne características de SUV, picape e minivan, traz elementos que remetem ao multiuso Multipla. Longe de ser reconhecido por seu design – embora eu, um amante confesso de carros esquisitos, simpatize –, o original inspirou alguns dos elementos estéticos da carroceria. Não estranhe, inclusive, se partes internas do carro definitivo tenham similaridades com o antigo.
A existência de tantos projetos com ares retrô mostra que provavelmente a onda não vai parar por aí. Com as marcas empenhadas em reforçarem suas identidades, é certo que teremos mais novidades neste sentido em breve. E elas devem vir de onde menos esperamos...

![[Coluna] - A onda retrô que incendeia Paris](https://ahqfcjapqxdavhivucpb.supabase.co/storage/v1/object/public/images/artigos/peugeot-205-t16-8-1792790296721.jpg)
