Como prometido no Salão do Automóvel de 2025, a Kia lançou [leia aqui] a picape média Tasman no Brasil. Com bom pacote de equipamentos, motor a diesel, tração 4x4 e preço convidativo, ficou devendo em assistências à condução (ADAS). Embora, por experiência própria, eu acredite que muitos desses auxílios sejam mais perfumaria do que úteis no uso corriqueiro.
Mas tudo isso ficou para escanteio, pois o que mais se falou da novidade foi seu design. De fato, as linhas de forte personalidade da Tasman acabam atraindo o debate. Mas um visual diferente da mesmice não é justamente o que temos pedido às montadoras?

Sou suspeito de falar em carros com design diferente: gosto muito de ousadias e invencionices no mercado automotivo. Claro, isso não é salvo-conduto para qualquer solução, mas a liberdade criativa é isso mesmo: fazer diferente o que todos fazem igual e ser alvo de críticas — positivas e negativas — por “pensar fora da caixa”, essa expressão tão utilizada em reuniões de marketing.
As lanternas de bandeirola dos primeiros SsangYong Kyron doem a vista. O conjunto do Chevrolet Agile é bastante discutível, principalmente quando comparado ao conceito GPix, que o antecipou. E o descompasso entre frente e traseira do reestilizado Peugeot 207 brasileiro realmente incomoda.
Mas me soam sensacionais criações como o para-brisa Zenith do Citroën C3 de segunda geração, a estilosa abertura das enormes portas do Renault Avantime e a integração das lanternas dos já mortos Peugeot 1007 e 207 SW, que nunca chegaram ao Brasil.
Diferente por princípio
Fato é que, gostemos ou não do estilo da Tasman, a Kia tentou fazer algo realmente diferente. A traseira talvez recorde um pouco a Jeep Gladiator em um ou outro elemento, mas o conjunto da obra é bastante único.
Não falo apenas da dianteira volumosa, com capô horizontal e lanternas posicionadas nas extremidades, junto às caixas de roda. É claro que ela acaba sendo o chamariz da picape, combinada à grade que se destaca junto ao para-choque. Mas os apliques plásticos dos para-lamas — que escondem inclusive o bocal do tanque —, o desenho das janelas e até o vidro traseiro apresentam soluções diferentes.
Considerando as dificuldades de inovação que a própria concepção de uma picape montada sobre chassi de longarinas impõe a qualquer departamento de engenharia, a ousadia do setor de design — evidentemente combinada aos esforços da engenharia — teve um resultado louvável.

Talvez a última grande inovação no segmento tenha vindo da Mitsubishi, com a primeira L200 da “era Triton”. Na ocasião, o estilo agressivo acabou sacrificando algumas outras áreas, como o espaço interno e a área de carga. Tivemos até uma solução posterior, utilizada também no Brasil, para alongar a caçamba em versões destinadas ao trabalho pesado.
Aos olhos de cada um
Não acho, apesar de tudo o que foi escrito acima, que magicamente o público vá admirar esses esforços ou passar a enxergar o modelo com outros olhos.
Afinal, a estética, algo tão subjetivo — embora às vezes nem tanto —, precisa agradar de imediato. Quando isso não acontece, cabe às outras características do veículo a tarefa de convencer o consumidor.
Mas, na minha humilde opinião de adorador de invencionices, a criatividade no design dos carros deveria ser bastante valorizada, ainda mais dentro de grandes montadoras repletas de bean counters, os engravatados “contadores de feijão” que nos tiraram o plástico emborrachado do painel ou mesmo as alças de teto de toda a família Polo atual.

Uma lufada de esperança
No fim, penso que ter a exótica Tasman em oferta é, ao menos, uma lufada de esperança de que, em um futuro não muito distante, tenhamos novamente a oportunidade de ver carros com personalidade.
Eles nem precisam ser “diferentes”, no fundo. Basta que tenham identidade, como tantos modelos que tínhamos há uma década.
Quem sabe os próximos SUVs — é basicamente o que temos no mercado atual, afinal — dispensem as lanternas unidas, os faróis separados, os logotipos iluminados, os interiores “limpos” com difusores de ar horizontais integrados e tantas outras soluções que parecem surgir de uma mesma prancheta.
Seria, ao menos, uma alternativa diferente em meio a tantas opções parecidas, com nomes por códigos dos quais mal conseguimos nos lembrar.
Por outro lado, talvez este seja justamente o “bonito” que o mercado quer e consome — e já não haja mais tantos dispostos a amar o “feio”.

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