Dez anos atrás, se alguém sugerisse que marcas chineses teriam tanta aceitação no mercado brasileiro em uma década, certamente poucas pessoas acreditariam nesta previsão. As dúvidas pairariam não apenas baseadas na pouca tradição destas empresas por aqui, algo que sempre foi valorizado pelo consumidor local, mas também pela experiência recente de montadoras daquele país em solo tupiniquim.
Companhias como Lifan, Chana (agora Changan) e JAC não caíram no gosto popular, o que também aconteceu com a Geely, que retorna com nova estratégia. A Chery também passou por dificuldades, contornando-as somente após firmar uma profunda aliança com o grupo local Caoa.
Em uma nova fase, as chinesas agora invadem o mercado brasileiro com uma enxurrada de produtos e submarcas. Mas, depois que esta avalanche de lançamentos ganhar as lojas, todas elas ainda estarão por aqui?
A invasão das chinesas no Brasil não é bem uma surpresa: com uma indústria moderna, alinhada com os principais mercados do mundo, propulsão eletrificada dominada e preços convidativos, as empresas sediadas no gigante asiático ganharam espaço em todos os cantos do planeta.
Aqui não foi diferente, com uma impressionante popularização de marcas como BYD e GWM – além da própria Chery –, o que atraiu compatriotas como GAC, Geely (agora aliada da Renault) e MG, entre outras tantas que estão por aqui e que virão. O carro elétrico se tornou algo desejável pelo consumidor tupiniquim e as orientais têm uma gama vasta para atender a esta demanda.
Não por acaso, em 2026, o Brasil se tornou o maior importador de veículos chineses do mundo, tendo adquirido, de janeiro a maio, US$ 5,2 bilhões em automóveis feitos por lá, 146,9% a mais que nos cinco primeiros meses de 2025, quando o País ocupava a sexta colocação neste quesito.
Do total de carros trazidos da China no ano passado, 87% foram híbridos ou elétricos. Para efeito de comparação, em 2021, esta fatia era de 33%. Tal crescimento foi um “alívio”, de certa forma, para as fábricas lá instaladas: em junho, as vendas internas caíram 23,4% e acumulam uma queda de cerca de 20% no primeiro semestre de 2026, em comparação com 2025. Assim, o Brasil também se tornou uma “válvula de escape” para a falta de demanda na China.
Mas o sucesso das marcas chinesas a gente vê nas ruas, com uma boa quantia de veículos de diferentes modelos e montadoras circulando por aqui. Ao acessar sites de economia ou de automóveis como o Auto Repórter ou acompanhar nossos vídeos, também podemos notar que há muito ainda por vir, entre especulações, promessas e lançamentos confirmados. E é este o ponto exato para reflexão: quando a água baixar, quem ainda estará de pé?

É fato que a diversificação de produtos, tal qual nos investimentos pessoais, é um facilitador para as montadoras: atendem-se diferentes públicos em uma faixa próxima de poder aquisitivo. Mas no ramo automotivo isso pode ser um grande problema, com o “canibalismo” de marcas e modelos, algo que gigantes como a Stellantis também enfrentam.
Chery: um grupo, várias marcas chinesas
O melhor exemplo que temos, agora, é do Grupo Chery. Enquanto a marca mais conhecida está vinculada à brasileira Caoa, a matriz chinesa promete operar, de maneira independente, pelo menos outras sete companhias.
Além das já presentes Omoda, Jaecoo e Jetour, as divisões Lepas e iCaur estão garantidas para cá
Enquanto subsidiárias como Freelander e Luxeed ainda devem ser formalizadas – no passado, também se falou na Exeed.
Com tantas marcas e modelos se sobrepondo somente dentro de um conglomerado de empresas, a briga por espaço promete ficar ainda mais acirrada se considerarmos quem já está presente por aqui (BYD, Changan/Avatr, Denza, GAC, GWM, Geely, JAC, Leapmotor, MG, Zeekr). Atualmente, são contabilizadas cerca de 15 marcas de origem chinesa atuando no País. Com a estratégia comum das montadoras de lá de atuarem com subdivisões, este número tende a avançar ainda mais nos próximos meses. Dentre nomes ventilados e confirmados, há a BAIC (Beijing Auto), a DFM (Dongfeng Motors), IM Motors (divisão de luxo da MG) e subsidiárias como Lotus, Lynk&Co e Polestar, controladas pela Geely.
UM MUSEU DE GRANDES NOVIDADES?
A invasão chinesa se assemelha, de certa forma, ao desembarque em massa de marcas automotivas com a abertura do mercado realizada em 1990 pelo então Presidente da República Fernando Collor de Mello. Na ocasião, o País, até então dominado por Fiat, Ford, General Motors (Chevrolet) e Volkswagen, e que dispunha de pequenos produtores, recebeu uma série de opções das mais diversas montadoras.
Algumas conquistaram sucesso imediato no segmento premium (Audi, BMW e Mercedes-Benz, por exemplo), enquanto outras pavimentaram o caminho para a nacionalização de veículos e sua popularização junto ao público local (Honda, Peugeot/Citroën, Renault e Toyota).
Por outro lado, marcas fortes no exterior tiveram dificuldade para atuar por aqui, por razões diversas, e já não estão mais presentes, como Alfa Romeo, Mazda e Seat. Outras enfrentam dificuldades em ganhar mercado, tal qual Subaru e Suzuki.
Com a enxurrada chinesa, não é de se duvidar que companhias que têm perdido mercado e consumidores possam revisar as operações e até mesmo desistir de vez de fazer frente a uma concorrência tão acirrada.
Ou seja: diante de um cenário tão diverso, com cada vez mais opções se sobrepondo – isso sem falar no aspecto visual que tem feito os carros ficarem cada vez mais parecidos... –, a tendência é que não haja espaço para que todos consigam manter atividades lucrativas. Assim, voltamos à pergunta inicial: após a enxurrada, quem, na sua opinião, ficará de pé?

