Falar que carro elétrico é o futuro da mobilidade significa atraso: como podemos ver, até mesmo no Brasil, veículos com tal tipo de propulsão já são nosso presente. Claro, não dominam o mercado, mas já dispõem de uma parcela relevante das vendas: de acordo com a Fenabrave, entidade que reúne os concessionários nacionais, eles representaram mais de 10% dos emplacamentos de agosto deste ano.
Somados aos híbridos, a fatia chega a 21,8%. Ou seja, uma quantia significativa, considerando-se que, dois anos atrás, a participação total dos eletrificados era de 6,6%. A tendência é que aumentem ainda mais a relevância, considerando-se a maior oferta de produtos, o crescimento da rede de carregamento, a evolução da tecnologia, entre outros fatores.
Logicamente, a tecnologia enfrenta também resistência, muito em parte devido à obrigatoriedade legal que se tem imposto pelo mundo. Também “jogam contra” os temores com demora na reposição de energia e autonomia reduzida, problemas que vêm se resolvendo com o avanço de desenvolvimento, e o design.
Este acaba ficando muito padronizado, especialmente pela necessidade de se criar superfícies com aerodinâmica favorável – para melhorar a eficiência energética – e por características inerentes à natureza do produto, com a falta de grade, por exemplo. Mas a indústria encontrou uma solução, que vem sendo aplicada há anos, para tentar contornar este lado: apelar para o emocional, utilizando estilos de produtos clássicos.
Franceses voltando ao passado em pleno futuro
A criação mais recente neste sentido apareceu por estes dias na Europa: o Renault 8 Gordini, um conceito que se inspira em um modelo da marca francesa, produzido entre 1962 e 1976 em vários cantos do planeta. Derivado do Dauphine, que foi vendido no Brasil também como Gordini, o original teve 89 cv na versão mais esportiva. Ressurgido como elétrico, o agora cupê conta com 270 cv. Estará no Salão de Paris, em outubro, mas sua produção ainda é incerta.
De todo modo, a própria Renault tem recorrido à escola retrô para desenhar seus elétricos modernos. A gama E-Tech europeia conta com cinco produtos, dos quais três são inspirados em veículos antigos: R4, R5 e Twingo. Os dois primeiros têm linhas oriundas de hatches lançados nos anos 1960 e 1970, respectivamente, enquanto o último faz clara alusão à primeira geração do subcompacto, que foi vendida no Brasil. Ou seja, apelo emocional para conquistar os mais tradicionais.

A receita, claro, se repete em outras montadoras. A Volkswagen, que teve um dos maiores cases de sucesso com carros retrô, recorreu à Kombi (“Transporter”, lá fora) para dar vida à ID.Buzz, enquanto o ID.Polo tem muitas das soluções vistas nas primeiras gerações de Polo e Golf, indisponíveis no Brasil. Curiosamente, a marca se recusa a criar um Fusca (“Beetle”) com a mesma pegada. Na China, a GWM não se fez de rogada: criou o Ora Ballet Cat, com clara inspiração no besouro clássico. Porém, as vendas não decolaram e, em julho deste ano, a montadora fez alterações na gama para tentar convencer o público a leva-lo para casa, embora o estilo permaneça o mesmo.
Permanecendo na Alemanha, temos o exemplo da BMW. Os bávaros não se contentaram também com um único produto e decidiram por criar uma família inteira inspirada em antigos. Até o nome é o mesmo: Neue Klasse. Os exemplos são o sedã i3 e o SUV iX3, que darão origem a outras derivações.
Na Fiat, 500 e 600e cumprem papel semelhante, embora tenham recebido propulsão também a combustão após a demanda não atender às expectativas da marca.

A Dodge ressuscitou o Charger da mesma forma, inicialmente com propulsão elétrica, embora variações a combustão estejam a caminho. Por fim, a Ford adotou uma solução próxima: criou o Mustang Mach-E, um SUV sem motor a gasolina, com nome e design trazidos do clássico cupê.
Projetos futuros neste sentido também não faltam. A Citroën confirmou, em maio, o retorno do clássico 2CV, o “Fusca francês”, como elétrico. Ele será adiantado em conceito no Salão de Paris, em outubro, com previsão de chegar às ruas em 2028, provavelmente mirando os compactos da Renault. A irmã Peugeot revelou o conceito Polygon, que deve inspirar a nova geração do 208 com elementos em alusão ao bem-sucedido 205.
No âmbito do “nada se cria, tudo se transforma”, é interessante observar como a indústria se reinventa, dentro do que permitem leis e regulamentações, para conquistar o consumidor. Se é preciso recorrer ao passado para elevar o apelo emocional, assim será, sem dúvidas. Resta saber apenas se isso é suficiente – além de preço, equipamentos e motorização, o que varia em cada caso – para que o mercado abrace seu produto.


