Quando crianças, nós, os doidos por carros, fantasiamos muitas coisas enquanto brincamos com as miniaturas que ganhamos de pais, parentes e/ou padrinhos. Realizamos saltos acrobáticos entre poltronas, subimos paredes com inclinação em 90 graus, fazemos com que “andem” de cabeça para baixo e saltem tal qual aeronaves espaciais (também imaginárias). Mas, nas últimas horas, este espírito infantil foi surpreendido pela apresentação de um carro que é capaz de fazer tudo isso em escala real, à sua maneira: a segunda geração do Tesla Roadster.
Por trás do Roadster está a figura de Elon Musk. O trilhardário nascido na África do Sul desperta admiração ou desprezo, a depender do freguês: protagonista de momentos polêmicos e com opinião política clara, ele é alvo de ataques ou objeto de elogios, algo inerente à sua posição enquanto empreendedor. Não quero me alongar nesta parte de seu perfil, contudo, pois o que quero destacar, da parte dele, está diretamente relacionada aos avanços vistos no Roadster: a capacidade de acreditar e investir em objetivos que parecem ser impossíveis.

Tesla: marca fez nome com carro elétrico
Antes de revelar este novo esportivo, Musk injetou capital na pequena Tesla, em 2004, para ajudar a financiar o projeto do primeiro Roadster. A inteção era “provar que carros elétricos poderiam ser divertidos” quando carros elétricos sequer eram tão comuns. Híbridos já existiam no exterior, é bem verdade, mas ainda em oferta bastante limitada.
O primogênito era baseado no Lotus Elise da época e apresentou uma série de falhas após seu lançamento comercial, em 2008. Dois anos depois, receberia uma atualização para aumentar a confiabilidade e melhorar o desempenho. Depois desta aventura, pela qual ficou famoso, Elon apostou na internet por satélite com a Starlink e derrubou a frase “foguete não dá ré” com a SpaceX.
Logicamente, investiu em outras áreas, onde também teve sucesso ou fracassou. O ponto-chave, no caso dele, é seguir acreditando que ideias mirabolantes no papel podem se tornar uma realidade palpável.
De volta ao novo Roadster, Musk indicou, em setembro de 2018, que a nova geração do modelo utilizaria propulsões de foguete. Ao detalhar os planos, arrancou risadas do apresentador americano Joe Rogan, descrente de que aquilo seria possível. O bilionário pontuou que não haveria queima de combustível, mas uso de ar comprimido em pressão bastante alta, possibilitando a locomoção. Oito anos atrás, era impossível; hoje, ao menos no protótipo revelado, é uma realidade.
É bem verdade que o Roadster não voa como um helicóptero ou avião, mas pode realizar algumas acrobacias sem que suas rodas – melhor dizendo, qualquer parte do carro – toquem o chão ou paredes. Um sistema de ventoinhas sob o assoalho gera até 2G de downforce, o que permitiu ao esportivo percorrer uma rampa invertida na apresentação oficial.
A Tesla fala ainda em outros 10 propulsores de gás frio, alimentados por reservatórios de ar em alta pressão. O “tanque” comporta 200 litros, mas a opção mais cara Rocket conta com 400 litros totais. Neste caso, remove-se o assento do carona e se reposiciona o banco do condutor para o centro.

Do que se falou no momento, sabe-se que o modelo possui um aerofólio traseiro ativo, que se ajusta em tempo real para alterar a sustentação. Algumas informações se desencontram, mas ainda surpreendem. A Tesla fala que a versão Rocket vai de zero a 97 km/h (60 milhas por hora) em 0,59 segundos e chega aos 370 km/h.
Chefe de engenharia da marca, Lars Moravy foi mais contido: 0,81 s para chegar aos 97 km/h, partindo da imobilidade. Independentemente dos números, o impacto deverá ser sentido na condução, pois os sistemas devem fazer com que o Roadster contorne curvas de maneira bastante atípica para um carro, da maneira que conhecemos. "Ele vai destruir todos os recordes de pista que já existiram", apontou Musk. O executivo indicou que o modelo deverá ser o último “não autônomo” da Tesla.
Ainda faltam detalhes sobre a complexidade do conjunto e sua operação, o que deve ser revelado ao mundo até 2028, ano no qual deve começar sua produção. Isso, claro, se não houver os atrasos típicos dos lançamentos da Tesla. Nas ruas, é pouco provável que tais funcionalidades estejam disponíveis, ficando restritas às pistas – o que pode impedir sua homologação.
Mas, lá no fundo, como os carros que andam sozinhos, a criança que fazia seu carro andar pelas paredes agora vê seu imaginário, de uma forma bastante limitada, se materializar. Talvez seja a hora de sonharmos com outras coisas...


